A ferida de Serra Pelada reaberta

Está prevista para 2013 a reabertura da mina de Serra Pelada. A maior mina a céu aberto do mundo, fechada em 1993, iniciará um novo ciclo de exploração de ouro, platina e paládio. O formigueiro de mais de 80.000 humanos, subindo e descendo as íngremes escadas, com pesados sacos nas costas à procura do El Dorado será substituído por imensas máquinas onde trabalharão apenas 500 homens. O ouro, antes obrigatoriamente destinado à Caixa Econômica Federal, ficará nas mãos de uma empresa canadense, a Colossus Minerals. A reabertura de Serra Pelada é um símbolo do boom minerador que vive o país hoje.

A famosa mina encontra-se no município de Curionópolis, no Pará. Curioso nome em homenagem ao major Curió, militar responsável pela intervenção federal a partir de 1980. Aí se encontra a Vila Serra Pelada, com população de cerca 6,5 mil moradores e um dos menores IDHs do país. Segundo os dados oficiais, foram extraídos, na primeira época de funcionamento da mina, mais de 30 toneladas de ouro. Toda essa riqueza deixou um rastro de destruição ambiental e social. Mais de 70% desses moradores são analfabetos e, em recente campanha de saúde, foi constatado que entre 96 pessoas examinadas, 45 eram portadoras do vírus HIV.

Agora se abre um novo ciclo. O garimpo será substituído por grandes e modernas máquinas, os trabalhadores diretamente empregados pela empresa serão apenas 350. Há a estimativa de que existam ainda pelo menos 33 toneladas de ouro no subsolo. Um acordo, que vem recebendo críticas por todos os lados, dará à empresa canadense Colossus Minerals 75% dos resultados operacionais do empreendimento e 25% à Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp). O resultado dessa parceria foi a criação da Serra Pelada Cia. de Desenvolvimento Mineral (SPCDM), conhecida como Nova Serra Pelada.

Mas a pergunta que fica é: quais os benefícios que a reabertura dessa ferida trará para a sociedade brasileira? Será que o empreendimento é tão novo quanto se autodenomina?

Para se extrair essas 33 toneladas de ouro serão necessários extrair outras 4.024.390 toneladas de outros materiais. Isso significa a abertura de uma nova e enorme cratera de 450 metros de profundidade, devastando uma área que pode variar entre 100 e 1.000 hectares. A quantidade de empregos diretos chega apenas a 500, sendo 150 terceirizados. Em geral, empreendimentos desse porte tendem a monotonizar a economia local causando uma profunda e precária dependência da atividade mineira. Além disso, por tratar-se de uma empresa estrangeira a realização de 75% dos resultados operacionais não se dará no Brasil.

Mas os problemas não param por aí. O que em geral permanece omitido nas notícias sobre a Nova Serra Pelada é a expectativa de vida útil dessa nova velha mina. Segundo Paulo de Tarso Serpa Fagundes, Chief Operating Officer, da Colossus e presidente da SPCDM, o projeto apresenta fôlego para operar de 10 a 15 anos, apenas. Isso mesmo, serão investidos mais de R$ 320 milhões em máquinas, movimentações de solo, pessoal que resultarão em um grande buraco abandonado e sem finalidade, em menos de duas décadas. Tal e qual o lago contaminado de mercúrio hoje existente como memória do antigo garimpo. Como será a vida da comunidade que se tornará dependente da atividade mineira depois que os minérios de escassearem e a empresa for embora? Será que a história de pobreza e sofrimento da população de Vila Serra Pelada persistirá?

Diante da perspectiva da curta vida útil da mina, além de toda a destruição socioambiental que a exploração gerará, fica a pergunta: precisamos reabrir essa ferida?

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